Sete dias longos
Uma playlist para a semana após o Natal
Já é de conhecimento geral que a ressaca da ceia de Natal também é a ressaca de tudo que sobrou pra comer nos dias que sucedem o 25. E, junto com isso, acho que a pior questão desses dias é o quanto a louça suja da ceia dura e se reinventa. O peito de peru fica pela metade dentro da geladeira, embrulhado em plástico filme, acompanhado das outras comidas e sumindo aos poucos até virar mais um prato para lavar. Isso por sete dias, até que o Ano Novo renove o ciclo das louças sujas.
Durante esses sete diazinhos também nos acompanha a ressaca de todo o ano que passou. É uma última semana com gosto de “não há mais nada a fazer, já foi o tempo de iniciar algum projeto, agora me resta viver os dias esperando o próximo ano”. Só de pensar, escuto o barulho do ventilador ligado e me sinto deitado em um colchão bagunçado, com o lençol mal colocado, posicionado na sala de estar para algum primo que veio visitar de longe dormir. São sete dias de um eterno domingo às 18h. E, para quem não conseguiu recesso e está trabalhando, uma eterna sexta-feira às 17h - não adianta abrir nenhuma pasta para começar um novo trabalho. O ano acabou e, querendo ou não, um pouco do ânimo também.
Pensando nisso, resolvi escolher sete músicas para esses dias. Músicas que, de alguma forma, carregam também essa calmaria de final de ano. Porém, diferentemente dos dias que nos levam para um limbo interminável, são boas criações que intercalam a melancolia e a esperança de um bom reinício, que não morre nem com toda a louça de salpicão e arroz com passas para lavar.
Sete dias, sete músicas
Começo a playlist com “Tempestade de verão”, de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro. Um pouco pelo nome, um pouco pela letra, um pouco pela melodia, essa música da dupla tem um quê especial da tristeza que guardamos pelo fim de um amor (e de um ano também, talvez).
Nunca mais vai fazer sol por aqui
Luz não brilha mais nesse coração
Já não posso assobiar dó, ré, mi
Essa é para começar lembrando do quase relacionamento cheio de romantismo que todos tivemos nessa metade da década de 20. Lançada em outubro de 2025, a música acompanha outras ótimas composições no álbum Handycam - que, acima de tudo, tem uma potência política muito interessante.
Sigo para “Dois Trabalhos”, música recém-lançada da curitibana Juia. Entre batidas e a voz calma da cantora, ela carrega o ritmo do final de ano na praia, com toda a boa moleza do tempo de férias. Parte do álbum homônimo (que vale muito a pena conferir na íntegra), “Dois Trabalhos” é o tipo de música para escutar tanto passando protetor solar no corpo quanto deitado de preguiça na rede. E vale também pros dias chuvosos na cidade, se for o caso - a música da Juia e os dias do fim do ano tem também o clima de chuva para um descanso no meio da tarde.
Logo em seguida, escolhi a demo de “Criaturas do Sol” para compor essa singela coletânea. Uma das primeiras músicas lançadas pelo artista Dionys, ainda em dezembro desse ano, ela transmite calma em voz e violão (e assobio) e uma letra sensível. É romântica, simples e divertida - como a última semana do ano pode ser.
Também viro fera com seu jeito manhoso
Inventamos um Carnaval
- já esperando por tudo que pode vir em 2026.
“Ainda é verão”, de Phylipe Nunes Araújo, é a próxima da lista. No título, nos relembra algo que às vezes podemos esquecer. Lançada no último novembro, em um incrível álbum de estreia que leva o mesmo nome do compositor, “Ainda é verão” é música para escutar apaixonado ou fazer-se apaixonar. Entra aqui pela melodia e letra - que costuram um clima de calmaria especial.
A próxima música, “Forest Baby”, também veio à público em 2025 - lançada no quarto álbum de Vovô Bebê, Bad English. Traz a animação das festas, um momento meio 14h da última sexta-feira ensolarada do ano, passeio no parque ou banho de piscina. Óculos de Sol para dar uma levantada naqueles ânimos que achávamos que já tinham morrido.
A música pro sexto dia, “Sonho Estranho”, é do álbum Coisas Estranhas, da banda catarinense Exclusive os Cabides. Além de comemorações, os últimos dias do ano também são reservados para retrospectivas. Paira sobre todos nós uma nostalgia de momentos recentes dos doze meses que passaram. Tudo isso se imprime nessa música, porque relembrar de alguns momentos parece muito, também, com um sonho estranho.
Para fechar, “Love is Everywhere”, de Pharoah Sanders. A única música que não é brasileira e recente - foi lançada no álbum Wisdom Through Music, em 1973 -, escolhi essa composição por sentir que ela representa um pouquinho de tudo que tem de bom em fechar um ciclo para iniciar outro. Mesmo com o cansaço, o fim de ano também garante o recomeço (e todo papo motivacional batido).
Essas músicas, pra mim, trazem muito do verão, da vida, da preguiça, do fim e do começo. Para conseguir curtir aquela semaninha entre o Natal e o Réveillon.








Bizarro como 2025 foi um ano marcado por exclusive os cabides e sophia chablau (e suas 400 bandas) por aqui. Tô um pouco atrasado, excelente lista 🤝